Baixa velocidade ainda frustra usuários

Enquanto procura sintonizar a televisão em um canal em que possa assistir o início da largada de uma corrida Fórmula 1, Robério Lessa liga três computadores. Um fica conectado às redes sociais via 3G. Outro, com conexão de banda larga fixa, usa o aplicativo Live Timing, que informa a posição dos pilotos. O terceiro computador, também com acesso via banda larga fixa, fica na página de seu blog autoral sobre automobilismo. Luzes dadas para a largada. Três, dois, um... Nada de internet. Esse é o drama de Robério Lessa, jornalista e editor do site "Carros e Corridas", morador do Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. "A internet no Eusébio não existe. Você contrata 10 Mbps, recebe 5 Mbps. Contratava 5 Mbps, recebia 3 Mbps. Sou uma vítima da falta de opção", lamenta.
Após 22 anos no Ceará e melhora considerável na oferta, o serviço de internet ainda deixa a desejar - sob o ponto de vista dos usuários - tanto em preço quanto em qualidade. Robério paga R$ 139 para ter telefone fixo e internet com velocidade de 10 Mbps. Mas não está satisfeito. "Faço todos os testes, inclusive de ping. Não recebo o valor contratado. A gente sabe que está sendo enganado", comenta.
Outro cliente insatisfeito com sua operadora é João Sudário, de 30 anos. Segundo o morador do bairro Monte Castelo, em Fortaleza, somente três empresas fornecem o serviço de internet banda larga em sua região e todas elas têm planos de serviços caros. "No momento, não estou satisfeito com a GVT. Pago R$ 130 por 10 Mpbs e sofro com problema de instabilidade na conexão ou queda total há pelo menos seis meses", lamenta.
Demanda x Investimento
As reclamações de Robério e Sudário não são exceções. De acordo com o relatório Barômetro Cisco de Banda Larga 2.0, de junho de 2013, o uso da internet cresceu cinco vezes mais que o investimento em infraestrutura, que foi de US$ 630 bilhões. Essa pode ser a chave para explicar o motivo de tantas reclamações por parte de usuários como Robério e Sudário.
A outra dúvida é: por que é tão difícil encontrar empresas de acesso banda larga nos municípios do interior do Estado ou mesmo em alguns bairros da capital cearense? A pesquisa "Situação Social dos Estados", feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2012, tenta explicar. Segundo o estudo, o acesso à internet no Ceará é considerado "um luxo", tendo em vista o baixo acesso da população ao recurso. Apenas 15,9% da população urbana do Estado tem acesso ao serviço. No interior, o percentual é quase nulo. Para a Cisco, a baixa qualidade do serviço segue como um dos principais inibidores da banda larga no mercado nacional e, apesar do preço praticado estar em queda, ainda é caro comparativamente a outros países da América Latina e do mundo. Outro fator mostrado pela pesquisa é a demanda reprimida, seja por uma cobertura com falta de opções de escolha de tecnologia ou por mercado concentrados em dois ou menos provedores.
De acordo com o relatório Net Insight, divulgado pela Nielsen Ibope, o número de pessoas com acesso à internet no Brasil atingiu a marca de 87,6 milhões em fevereiro deste ano, representando um aumento de 4,6% em relação ao mês anterior. Em relação ao igual período de 2013, o aumento foi de 21%. Além disso, a pesquisa aponta que o tempo de uso de computadores por habitante chega a 50 horas mensais. Dessas 87,6 milhões de pessoas com acesso, 47,8 milhões já têm conexão de mais de 2 Mbps, um aumento de 105% em relação ao mesmo período de 2012.
Crescimento esperado
Apesar do serviço de internet no País ainda ser muito caro em relação ao de outros países, o Ministério das Comunicações, em resposta a solicitação do Diário do Nordeste, informou que "o preço do acesso à banda larga no Brasil caiu 46% apenas de 2010 para 2011" e que "parte desse resultado se deve à política do governo federal de oferta de pacotes populares de acesso à banda larga fixa e/ou móvel".
Ainda segundo dados do Ministério das Comunicações, existem no Brasil 22,1 milhões de conexões de banda larga fixa, atendendo 10,1% da população e 33,7% dos lares, e 103,6 milhões conexões de banda larga móvel. Segundo projeção da Cisco, o número de conexões fixas subirá para 43,7 milhões em 2017. No Ceará, dos 184 municípios, 114 contam com serviço de internet ofertado pela operadora de telefonia Oi - a provedora de maior presença no Estado. Somente em Fortaleza, 27 empresas são homologadas pela Anatel para fornecer serviços multimídia, entre eles internet. Enquanto clientes reclamam do serviço, as operadoras afirmam que a concorrência é grande e que elas investem alto.
Segmento lidera em reclamações
Nos pacotes oferecidos pelas companhias provedoras, as velocidades prometidas para o consumidor final no Ceará variam de 1 Mbps até 150 Mbps
As empresas de internet são líderes de reclamação em sites especializados. Na lista das dez empresas mais contestadas pelo site Reclame Aqui, as cinco primeiras prestam serviço de acesso à internet em banda larga fixa ou móvel. Juntas, elas somam mais de 280 mil reclamações nos últimos 12 meses.
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as operadoras passam por medições de qualidade periódicas. Nas últimas medições realizada pela agência, em dezembro de 2013, as duas maiores operadoras do Ceará foram testadas. Dos seis testes principais, a Oi, com velocidade média de 6,19 Mbps para planos acima de 2 Mbps, foi aprovada em cinco e não atingiu a meta no teste SCM 8, que mede a qualidade de conexão. Já a GVT, com média de 12,68 Mbps para planos acima de 2 Mbps, obteve êxito em todas.
Concorrência
Para Sayde Bayde, diretor executivo do Grupo Mob, proprietário da Mob Telecom, a concorrência no ramo é alta, mas a qualidade ofertada não atinge patamares desejáveis. "O problema é que o cuidado com a qualidade do serviço fica em segundo plano. O objetivo da concorrência é conquistar espaço, com preços agressivos", diz. A Mob oferece no varejo velocidades entre 6 Mbps e 100 Mbps e, para o mercado corporativo, velocidades de 10 Mbps até 1 Gbps. Sayde afirma que não considera o serviço de internet caro no Ceará. "Não vamos brigar com mercado por preços e sim por qualidade e maiores velocidades", declara.
Com ofertas entre 2 Mbps e 100 Mbps, a Multiplay informa que "sempre há o que ser aperfeiçoado" e "há uma ampla variedade de opções no mercado". Já a concorrente Net oferece pacotes com velocidades entre 10 Mbps e 120 Mbps ao custo de R$ 49,90 e R$ 299,90. Para Marco Faria, diretor regional da Net, a presença de quatro grandes players em Fortaleza fomenta a "dinâmica" do mercado. "No final, quem ganha é o consumidor", diz.
A GVT oferece serviço de 15 Mbps a 150 Mbps. "Em 2010, entramos em Fortaleza oferecendo o mesmo portfólio de produtos e praticando os mesmos preços adotadas nas regiões Sul e Sudeste, o que estimulou o fenômeno de redução de preços", comenta Renato Pontual, diretor comercial da companhia no Nordeste. A empresa mais antiga do setor, a Oi, informou que oferece conexões de 1 Mbps a 15 Mbps.
Investimentos
Todas as operadoras relatam que vêm fazendo constantes investimentos em melhorias. A Net investiu R$ 80 milhões e pretende lançar ainda neste ano um plano popular com velocidade de 1Mbps por R$ 29,90 mensais.
A GVT diz ter investido R$ 10 milhões em segurança de rede no Nordeste e cerca de R$ 250 milhões no Ceará para implantação e manutenção de rede e instalação do call center em Fortaleza. Para 2014, a empresa planeja investir mais R$ 7 milhões em infraestrutura.

Fonte:http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/suplementos/tecno/baixa-velocidade-ainda-frustra-usuarios-1.995637

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